Arqueólogos descobriram o túmulo de um casal francês do século XVII, enterrado com seus corações – e a história por trás disso é chocante.
Em uma descoberta arqueológica que chocou o mundo da história e da antropologia, especialistas do Instituto Nacional Francês de Pesquisa Arqueológica Preventiva (INRAP) desenterraram o túmulo de uma nobre do século XVII em Rennes, na Bretanha, sepultada ao lado do coração embalsamado de seu marido.

Esta descoberta, feita durante escavações preliminares para a construção de um centro de conferências no local do antigo convento jacobino, revela não apenas um extraordinário estado de conservação, mas também uma história de amor eterno que transcende a morte, numa prática funerária rara e profundamente romântica.
A protagonista desta história é Louise de Quengo, Senhora de Brefeillac, uma aristocrata bretã que morreu em 1656, com cerca de 65 anos. Seu corpo foi encontrado em um caixão de chumbo hermeticamente fechado dentro de um túmulo de pedra na capela do convento de Saint-Joseph.
O que surpreende é que o corpo estava quase intacto: totalmente vestido com roupas religiosas, incluindo um manto, um hábito, sapatos de cortiça e um chapéu, como se tivesse sido enterrado recentemente.
A preservação natural, devido à perfeita vedação do caixão e às condições do solo, permitiu que até mesmo as partes moles, como a pele, o cabelo e parte do cérebro, permanecessem em bom estado.

Aos seus pés, os arqueólogos encontraram um relicário de chumbo em forma de coração com uma inscrição identificando seu conteúdo: o coração embalsamado de seu marido, Toussaint de Perrien, cavaleiro de Brefeillac, que havia falecido sete anos antes, em 1649.
Toussaint foi sepultado a mais de 200 quilômetros de distância, em um convento carmelita que ele fundou em Carhaix, mas seu coração foi removido cirurgicamente e preservado para ser reunido a Louise após sua morte.
Esse gesto não foi meramente simbólico: análises posteriores revelaram que o corpo de Louise também não tinha o coração, sugerindo uma troca mútua planejada em vida, uma prática romântica singular documentada arqueologicamente pela primeira vez.

O contexto histórico deste casal nobre situa-se na França do século XVII, uma época de profunda devoção católica e complexas tradições funerárias entre a aristocracia.
Após a morte de Toussaint, Louise provavelmente se retirou para o convento jacobino de Rennes, um prestigioso local de sepultamento para a elite bretã, onde se localizava o Parlamento da Bretanha.
Entre a nobreza, era costume separar os órgãos para multiplicar os locais de culto e homenagear diferentes instituições religiosas, mas a troca de corações entre cônjuges representa um nível de intimidade e sentimentalismo raramente visto.
Exames forenses, incluindo tomografias computadorizadas e autópsias, confirmaram que Louise sofria de cálculos renais graves e aderências pulmonares, enquanto o coração de Toussaint apresentava sinais de aterosclerose, comum na época.
Essa descoberta não é isolada: mais de 1.300 túmulos datados dos séculos XIV ao XVIII foram encontrados no mesmo local, incluindo quatro outros relicários com corações embalsamados em urnas de chumbo em formato de coração.
No entanto, o caso de Louise e Toussaint destaca-se pela sua natureza romântica.
Rozenn Colleter, antropóloga do INRAP, descreveu o momento da abertura do caixão como um dos mais chocantes de sua carreira: esperavam encontrar ossos, mas encontraram um corpo vestido segurando um crucifixo e com as mãos cruzadas em oração.
A remoção do coração de Toussaint foi realizada com “maestria cirúrgica”, demonstrando o envolvimento de embalsamadores experientes.

A prática de enterrar corações separadamente tem raízes na Europa medieval, influenciada pela Contrarreforma Católica, onde o coração simbolizava a sede da alma e do amor.
Os nobres doavam órgãos aos seus conventos ou igrejas favoritos para garantir orações eternas, mas aqui a razão parece ser puramente sentimental: unir o casal mesmo na morte. Durante a Revolução Francesa, muitos desses relicários foram derretidos para a fabricação de balas, tornando esta descoberta ainda mais preciosa.
Análises científicas revelaram detalhes fascinantes sobre a saúde e os costumes da época. Apenas 2 a 3% dos corpos de nobres sofreram intervenções post-mortem, como embalsamamento ou remoção de órgãos. O coração de Toussaint foi perfeitamente preservado, permitindo estudos sobre doenças cardiovasculares da antiguidade.
Louise, uma viúva devota, escolheu levar consigo o coração do marido como um ato final de união, um testemunho de amor em uma época de casamentos arranjados entre nobres.
Essa descoberta surpreendente reacendeu o interesse pelas práticas funerárias do Renascimento e do Barroco na Europa. Comparado a casos como o dos “Amantes de Valdaro” do Neolítico ou os sepultamentos reais de Saint-Denis, o enterro de Louise e Toussaint é único por suas evidências arqueológicas de uma troca matrimonial.
Especialistas planejam exibir as roupas restauradas de Louise, enquanto seu corpo foi respeitosamente sepultado novamente.
A história por trás deste túmulo nos lembra que o amor pode desafiar o tempo e a morte. Num mundo em que a aristocracia do século XVII conciliava intrigas políticas e devoção religiosa, este casal bretão escolheu um gesto eterno: unir seus corações para sempre.
Um lembrete comovente de que, mesmo há 350 anos, o amor romântico podia ser tão intenso quanto é hoje.