
Olá, meus queridos. Tudo bem com vocês? Hoje eu trouxe uma história que vai mexer profundamente com o coração e a alma de cada um de vocês. É uma história real, crua e dolorosa que aconteceu aqui no Brasil, no período mais sombrio, longo e vergonhoso da nossa história: a escravidão. Eu sei que é um tema pesado, difícil de digerir, mas é fundamentalmente importante a gente conhecer essas histórias, entender o sofrimento indizível que passou por esta terra, o que nossos antepassados viveram, suportaram e superaram.
Então, pega um cafezinho, se acomoda aí na sua poltrona, porque a história que vocês vão ouvir agora é de cortar o coração, de fazer chorar, mas também é uma narrativa poderosa de coragem inabalável, de luta incessante e de esperança contra todas as probabilidades. Vamos conhecer a história real de Isaura, uma jovem escrava branca que foi perseguida obsessivamente pelo próprio Senhor de uma forma cruel e desumana. E agora vou deixar que ela mesma, com sua voz que atravessa o tempo, conte para vocês tudo o que viveu, cada detalhe, cada lágrima, cada sofrimento, cada esperança.
Presta bem atenção, porque cada palavra aqui é importante e carrega o peso de uma vida.
“Meu nome é Isaura. Nasci no ano de 1840, numa fazenda próspera em Campos dos Goitacazes, na província do Rio de Janeiro, uma terra de canaviais a perder de vista e de muita riqueza construída sobre o sangue negro. Minha mãe, Juliana, era uma escrava mulata de pele clara e traços finos, filha de uma negra com um senhor branco, uma história comum naquele tempo. Meu pai era Miguel, o feitor português da fazenda, um homem livre, de olhos azuis profundos e cabelos loiros como o sol.
Quando nasci, foi uma surpresa e um choque para todos que me viram pela primeira vez. Minha pele era branca como a neve, sem nenhum traço da cor da minha mãe ou avó. Meus olhos eram azuis como o céu limpo do verão, e meus cabelos eram louros e ondulados como os trigais que via nas ilustrações dos livros europeus. Ninguém que me visse, sem conhecer minha origem, diria que eu era filha de uma escrava, uma cativa. Mas eu era.
E essa foi minha maldição, meu estigma, desde o primeiro dia que respirei o ar quente e úmido deste mundo.
A senhora da fazenda, Dona Ester, era uma mulher bondosa, religiosa e de coração puro, uma exceção naquele mundo de brutalidade. Quando me viu ainda bebê nos braços cansados de minha mãe, tomou pena de mim e decidiu, num ato de caridade cristã, que eu não seria criada nas senzalas imundas como as outras crianças escravas, destinadas ao trabalho pesado desde cedo. Me levou para a Casa Grande, para o luxo e o conforto, e me criou quase como se fosse sua própria filha, sua boneca viva.
Aprendi a ler e escrever, coisa rara e proibida até para muitas moças brancas da época. Estudei francês, italiano, li os clássicos da literatura. Aprendi a tocar piano com perfeição, a bordar com delicadeza ímpar, a pintar aquarelas que retratavam a beleza da fazenda que era minha prisão. Usava vestidos finos de musselina e seda importada, dormia em cama macia com lençóis de linho cheirosos, comia na mesa da família com talheres de prata como se fosse uma dama da corte.
Mas, por mais que vivesse como uma senhora, por mais que minha pele fosse branca e meus modos fossem refinados e cultos, eu jamais poderia esquecer, nem por um segundo, o que realmente era: uma escrava. Uma propriedade. Uma coisa sem alma perante a lei. O Comendador Almeida, marido de Dona Ester e dono de tudo e de todos na fazenda, nunca gostou de mim. Me olhava com um desprezo frio e calculado. Achava um absurdo, uma aberração, eu ser tratada como igual aos brancos, comer na mesma mesa, vestir as mesmas roupas.
Mas respeitava, a contragosto, a vontade de sua esposa, que insistia em me proteger e me mimar.
Minha mãe, a doce Juliana, morreu quando eu tinha apenas 12 anos. Uma febre repentina e violenta a consumiu em poucos dias, fazendo-a definhar na minha frente até virar só pele e osso. Lembro de tê-la visto pela última vez deitada numa cama simples de palha na senzala, onde ela ainda vivia, seu rosto pálido e suado, os olhos fundos e brilhantes me olhando com tanto amor e tanta tristeza. Ela segurou minha mão com a pouca força que ainda tinha, apertando meus dedos, e disse com a voz fraca, num sussurro que nunca esquecerei:
‘Isaura, minha filha… você nasceu com a cor da liberdade, mas carrega as correntes invisíveis da escravidão. Nunca esqueça quem você é, de onde veio. A liberdade é o bem mais precioso que existe, mais que o ouro, mais que a vida. Busque-a.’
Chorei muito naquele dia, um choro de orfandade e desespero. Dona Ester me consolou, me abraçou como mãe, enxugou minhas lágrimas com seu lenço de renda, mas nada, nem todo o carinho do mundo, poderia preencher o vazio imenso que minha mãe deixou no meu peito.
Os anos passaram devagar na fazenda. Eu cresci e me tornei uma moça. Aos 17 anos, já era considerada, pelos que me viam de longe ou visitavam a casa, uma das mulheres mais belas e elegantes da região. Embora poucos soubessem a verdade: que aquela dama que tocava piano era uma escrava. Dona Ester me protegia como uma leoa protege seus filhotes, mantinha meu segredo guardado a sete chaves, e eu vivia numa bolha de falsa liberdade, de ilusão, dentro daquela fazenda imensa.
Mas em 1857, tudo mudou de forma brutal, rápida e definitiva. O destino, que parecia ter me esquecido, veio cobrar seu preço. Dona Ester adoeceu gravemente. Uma doença do coração, disseram os médicos, que a deixou fraca, pálida e sem ar. Nos últimos dias de vida, sentindo o fim chegar, ela me chamou ao seu quarto escuro e abafado. Estava deitada, tão magra e frágil que parecia uma boneca de porcelana quebrada, prestes a se desfazer. Com lágrimas nos olhos cansados, ela segurou minha mão com força desesperada e disse:
‘Isaura, minha querida filha do coração… perdoe-me. Eu tentei… tentei muito garantir sua liberdade em meu testamento. Pedi, implorei ao Comendador que assinasse sua carta de alforria agora, antes de eu partir. Mas meu filho Leôncio… ele é o herdeiro de tudo. Ele é um homem de coração duro, de alma corrompida pelo vício e pela maldade. Tenha muito cuidado, minha filha. Muito cuidado com ele.’
Ela morreu três dias depois, numa tarde chuvosa, e com ela morreu minha última e única proteção verdadeira neste mundo cruel. Eu estava sozinha.
Leôncio era o filho único e mimado de Dona Ester e do Comendador Almeida. O pai já havia falecido anos antes, deixando toda a fortuna e poder nas mãos do filho inescrupuloso. Leôncio tinha 32 anos. Era rico, considerado bonito aos olhos de muitas mulheres da sociedade, mas tinha um coração podre e negro por dentro. Jogava nas cartas até perder fortunas, bebia até cair pelos cantos e tinha fama de ser extremamente cruel e sádico com os escravos. Mandava açoitar por qualquer erro mínimo, castigava sem piedade, divertia-se com a dor alheia.
Desde que eu era jovem, menina ainda, ele me olhava de um jeito estranho, um jeito que me fazia sentir nua, suja e vulnerável, mesmo estando completamente vestida e coberta. Mas enquanto Dona Ester estava viva e vigilante, ele nunca ousou me tocar ou dizer uma palavra inadequada. O respeito, ou o medo da mãe, o continha.
Uma semana após o enterro de sua mãe, quando o luto ainda cobria a casa, Leôncio me chamou à biblioteca da Casa Grande. Entrei com o coração apertado de medo, as pernas tremendo. Ele estava sentado numa poltrona de couro escuro, um copo de vinho tinto na mão, o olhar fixo em mim, como um predador olha a sua presa antes do ataque.
‘Isaura!’, disse ele com um sorriso torto que me arrepiou até os ossos. ‘Você sabe que agora esta fazenda é minha. Toda ela. E tudo que há nela… cada pedra, cada árvore, cada animal, cada escravo… também é meu. Inclusive você.’
Senti meu sangue gelar nas veias, o ar faltar nos pulmões.
‘Senhor Leôncio…’, respondi com a voz tremendo, tentando manter a compostura e a dignidade que Dona Ester me ensinara. ‘Dona Ester me criou como filha, me educou como uma dama…’
Ele me interrompeu com uma gargalhada cruel, alta e debochada, jogando a cabeça para trás.
‘Você não é filha de ninguém, Isaura! Você é uma escrava! Minha escrava! Uma peça do meu inventário. E a partir de hoje vai me servir. Mas você… você vai me servir de um jeito muito especial, diferente das outras.’
Naquela noite, fugi correndo para meu quarto e tranquei a porta com as mãos tremendo, empurrando móveis contra ela. Chorei até não ter mais lágrimas, até sentir a garganta arder e a cabeça latejar. Sabia exatamente o que ele queria de mim. Sabia que, sendo escrava, propriedade dele perante a lei dos homens, não tinha como me defender. Eu era um objeto, uma coisa sem vontade própria. Minha beleza, que antes era motivo de orgulho para Dona Ester, agora era minha maior maldição, minha sentença.
Nos dias seguintes, o pesadelo começou. Leôncio começou a me perseguir incansavelmente pela casa, como um gato brinca com o rato. Aparecia sorrateiramente nos lugares onde eu estava lendo ou costurando. Mandava me chamar a qualquer hora do dia e da noite para tarefas inúteis. Inventava desculpas para me tocar, para roçar em mim, para ficar perto sentindo meu cheiro. Eu me esquivava, fugia, me escondia, mas ele sempre voltava com mais intensidade e obsessão.
Uma tarde quente, ele me encurralou no corredor escuro da Casa Grande, longe dos olhares dos outros servos. Tentou me beijar à força, seus lábios úmidos cheirando a bebida forte e tabaco. Eu o empurrei com toda a força que tinha, com nojo e pavor, e corri desesperada para o jardim. Ele gritou atrás de mim, com raiva e desejo misturados, uma voz de dono ferido:
‘Você pode correr, Isaura! Mas não tem para onde ir! O mundo acaba na porteira da minha fazenda! Você é minha! Minha propriedade!’
Foi nessa época terrível, de medo constante, que conheci uma luz. Conheci Tobias. Ele era um jovem fazendeiro, dono da fazenda vizinha chamada Ibituba. Era um homem bonito, de olhar limpo, e de ideias abolicionistas, raras na região. Estava visitando a família e cuidando das terras.
Nos encontramos numa missa na igreja da cidade, num domingo de sol brilhante. Nossos olhares se cruzaram durante o sermão do padre e foi como se o mundo parasse de girar, como se só existíssemos nós dois ali. Depois da missa, ele se aproximou de mim com respeito e conversamos na porta da igreja, sob a sombra das árvores. Ele não sabia que eu era escrava. Minhas roupas, meus modos, minha pele… para ele, eu era apenas uma moça bonita, educada e gentil da sociedade local.
Começamos a nos encontrar em segredo, vivendo um amor proibido e perigoso. Eu mentia para Leôncio e para a governanta. Dizia que ia visitar uma amiga doente na cidade, mas na verdade me encontrava com Tobias na praça, perto do rio, debaixo das árvores antigas que escondiam nossos segredos. Tobias me fazia sentir humana novamente, me fazia esquecer as correntes. Ele me tratava com respeito, com carinho verdadeiro, como uma igual. Falava sobre liberdade, sobre justiça, sobre um Brasil novo sem escravidão. Contava seus sonhos de ver todos os homens livres e iguais.
E eu me apaixonei. Me apaixonei pela primeira vez na vida. Eu me apaixonei de verdade, com todo o meu coração sofrido, mas sabia que aquilo era impossível, que era um sonho lindo condenado desde o início. Como poderia contar a ele, um homem livre e rico, que eu era escrava? Que pertencia a outro homem? Que não tinha direito nem sobre meu próprio corpo, nem sobre meu próprio destino? Que eu valia dinheiro num papel?
Foi meu pai, Miguel, que me revelou sua identidade nessa época de angústia. Ele trabalhava agora como feitor na fazenda de Tobias, tendo saído da fazenda de Leôncio anos antes. Quando nos viu juntos, conversando apaixonados, me procurou em segredo. Com lágrimas nos olhos, aquele homem forte me disse:
‘Isaura… eu sou seu pai. Miguel. Amei sua mãe Juliana mais do que tudo neste mundo, mas não pude salvá-la da morte. Agora, Deus me deu uma segunda chance. Vou fazer tudo, tudo o que for preciso, para salvar você dessa vida.’
Abracei meu pai pela primeira vez, sentindo um amor e uma proteção que não conhecia. Ganhei um aliado.
Mas havia outras pessoas que me odiavam e queriam meu mal. Rosa era uma escrava que trabalhava na fazenda de Leôncio. Uma mulher bonita, mas cheia de inveja, amargura e maldade no coração. Ela sentia uma raiva mortal de mim por causa dos privilégios que Dona Ester me dava, por eu não trabalhar no eito, por eu vestir seda. Rosa vivia fazendo intrigas, espalhando mentiras venenosas, tentando me prejudicar de todas as formas possíveis. Ela era amante de Leôncio, servia aos caprichos dele na esperança de favores, e fazia de tudo para me colocar contra ele e ele contra mim.
Leôncio, com sua vigilância obsessiva, descobriu meus encontros secretos com Tobias. Não sei se foi Rosa quem contou, traindo-me, ou se ele mandou alguém me seguir, mas descobriu. Uma noite, ele entrou em meu quarto sem bater, chutando a porta. Estava bêbado, com os olhos vermelhos de raiva, ciúmes e posse.
‘Então é verdade…’, disse ele, a voz cheia de veneno e ódio contido. ‘Você está se encontrando com aquele abolicionista idiota do Tobias? Você acha que ele vai te salvar? Acha que ele vai casar com uma escrava? Com uma propriedade minha? Ele vai te usar e te jogar fora quando souber o que você é!’
Tentei negar, tentei argumentar, mas ele avançou em mim como um animal furioso. Me agarrou pelo braço com tanta força que deixou marcas roxas imediatas na minha pele branca.
‘Você vai esquecer esse homem agora mesmo!’, ele sibilou, aproximando seu rosto suado do meu, o cheiro de álcool me enjoando. ‘Ou vou fazer você se arrepender de ter nascido, Isaura. Vou fazer você sofrer de formas que você nem imagina. Vou te mandar para o tronco!’
No dia seguinte, cumprindo a ameaça, Leôncio mandou me trancar no quarto. Passei três dias inteiros sem sair, sem ver a luz do sol, recebendo apenas água e pão seco jogados no chão. Quando finalmente me soltou, com um sorriso sádico, disse que tinha mandado um recado falso para Tobias em meu nome, dizendo que eu havia partido para o interior com urgência para casar com outro e não queria mais vê-lo.
Meu coração se partiu em mil pedaços. Não pude nem me despedir do homem que amava, nem explicar a verdade. Mas o pior, a tragédia verdadeira, ainda estava por vir.
Leôncio, precisando de dinheiro e status, havia se casado com Malvina, uma moça doce, rica e bondosa da corte do Rio de Janeiro. Filha do rico Coronel Fontoura. Malvina não sabia da maldade do marido, nem de sua obsessão por mim. Quando chegou à fazenda, ela se encantou comigo, com minha educação, minha música, minha tristeza. Nos tornamos amigas, confidentes. Ela não entendia por que o marido me olhava daquela forma estranha e possessiva, por que ele ficava obcecado por uma escrava branca, por que me odiava e me desejava ao mesmo tempo.
Um dia, Tobias, desconfiado do recado, conseguiu vir até a fazenda escondido. Ele me encontrou nos jardins, chorando, e declarou seu amor eterno. Disse que não acreditava que eu o tivesse deixado. Disse que queria me comprar de Leôncio, pagar o preço que fosse, me dar a liberdade e casar comigo. Meu coração encheu de esperança novamente.
Mas Leôncio, louco de ciúmes e obsessão doentia, descobriu e armou uma cilada terrível, diabólica. Ele marcou um encontro falso numa cabana de madeira abandonada no meio da plantação de cana, longe da casa, dizendo a Tobias, através de um bilhete falso, que eu estaria lá esperando por ele para fugirmos.
Malvina, suspeitando de algo errado com o marido, seguiu Tobias até lá, achando que ele ia encontrar Leôncio. Os dois, Tobias e Malvina, estavam conversando dentro da cabana, tentando entender a situação, quando Leôncio, pensando que eu estava lá dentro com Tobias (pois tinha mandado me levar para lá, mas eu me atrasei), trancou as portas por fora e ateou fogo na madeira seca.
O incêndio foi rápido, violento e devorador. Tobias e Malvina, trancados, morreram queimados vivos, gritando por socorro. Eu só soube depois, quando vi a fumaça preta subindo ao céu e ouvi os gritos desesperados dos escravos. A escrava Santa, que era amiga de Malvina e minha, testemunhou tudo escondida no mato, mas foi ameaçada de morte por Francisco, o feitor cruel e braço direito de Leôncio, se abrisse a boca.
Quando descobri que Tobias, meu amor, havia morrido daquela forma horrível, e que Malvina, aquela moça inocente e boa que só queria me ajudar, também morrera por minha causa, algo dentro de mim morreu também. A culpa me consumiu. Passei semanas em estado de choque, febril, sem conseguir comer ou dormir direito, vendo o fogo nos meus pesadelos.
Leôncio fingiu estar de luto pela esposa perante a sociedade, mas na verdade, na intimidade, estava satisfeito por ter eliminado seu rival e se livrado da esposa que o atrapalhava. E agora, sem Malvina, ele achava que o caminho até mim estava livre.
Mas eu o rejeitei com mais força ainda. Furioso, ele me condenou a trabalhos pesados como castigo. ‘Se não quer ser amante, será escrava de eito!’, gritou. Passei a trabalhar na lavoura debaixo do sol, cortando cana, carregando água, lavando roupas no rio, fazendo os serviços mais duros que minhas mãos finas nunca tinham feito. Ele tirou todos os privilégios, todas as roupas bonitas, todos os livros que Dona Ester havia me dado.
Passei a dormir numa pequena cela separada na senzala, a comer restos de comida em prato de lata, a usar roupas velhas e rasgadas de algodão grosso que machucavam minha pele. E todas as noites, como um fantasma, ele batia na minha porta, pedindo, implorando, ameaçando, chorando. Oferecia-me vestidos de seda, joias de família, uma casa própria na cidade, se eu me tornasse sua amante por vontade própria.
Mas eu sempre recusava. Dizia não. Mesmo sabendo que cada recusa significava mais castigos no dia seguinte, mais sofrimento, mais ódio.
Eu rezava todas as noites, ajoelhada no chão de terra batida, pedindo forças a Deus para não desistir. Pensava em minha mãe, nas palavras dela no leito de morte: ‘Você nasceu com a cor da liberdade, mas carrega as correntes da escravidão. Nunca esqueça quem você é’.
E foi aí, no fundo do poço, que tomei a decisão mais difícil e corajosa da minha vida. Eu ia fugir. Eu ia buscar minha liberdade ou a morte. Não havia mais meio termo.
Uma madrugada escura de setembro de 1858, enquanto todos dormiam profundamente após uma festa na casa grande, juntei as poucas coisas que tinha: um vestido velho, um pedaço de pão duro, o terço de contas de minha mãe. Vesti roupas simples de homem para disfarçar, amarrei um lenço na cabeça para esconder meus cabelos louros que chamavam tanta atenção, e fugi pela mata fechada.
Caminhei a noite inteira por estradas de terra escura, cortando os pés, rasgando a roupa nos espinhos, escondendo-me sempre que via alguém se aproximar a cavalo. Tinha medo, muito medo. O coração batia na boca. Sabia que se me pegassem, o castigo seria terrível: seria marcada a ferro quente no rosto com a inicial de Leôncio, açoitada no tronco até a carne abrir, talvez morta como exemplo para os outros.
Mas o medo de ficar e ser possuída por aquele monstro era infinitamente maior que o medo de fugir e morrer tentando.
Meu pai Miguel me ajudou. Ele planejou tudo. Ele fugiu comigo, junto com André e Santa, o casal de escravos amigos que também sonhavam com a liberdade e conheciam os caminhos.
Conseguimos chegar a Recife, no nordeste, depois de semanas de caminhada perigosa, fome e sede, pegando carona escondidos em carroças de comerciantes, dormindo em fazendas abandonadas, no mato, sob a chuva.
Quando finalmente vi o mar de Recife pela primeira vez, chorei de emoção. Nunca tinha visto o mar. Era azul, imenso, infinito, poderoso e livre. Como eu tanto queria ser.
Em Recife, mudamos nossos nomes para não sermos descobertos pelos caçadores de recompensa. Eu me tornei Elvira. Meu pai virou Anselmo. Conseguimos alugar uma pequena casa numa rua tranquila e afastada, e foi lá que, tentando recomeçar, encontrei meu segundo amor: Álvaro.
Álvaro era um jovem advogado abolicionista, de ideias avançadas e modernas para a época, rico e de uma família tradicional de Recife. Nos conhecemos numa loja de tecidos onde eu fui comprar linha para costurar. Ele ficou encantado comigo, com minha beleza triste, e começou a me cortejar com respeito e admiração.
Começamos a fazer planos de casamento, de uma vida juntos. Ele falava de fugir para a Europa, para Paris, onde eu poderia ser verdadeiramente livre, onde a cor da pele ou a origem não importavam tanto, e ninguém saberia de meu passado de escrava.
Pela primeira vez depois da morte trágica de Tobias, eu voltei a sorrir, a ter esperança, a ser feliz. Verdadeiramente feliz.
Mas a felicidade durou pouco, como sempre duravam minhas alegrias naquela vida amaldiçoada.
Seis meses depois, numa noite que parecia comum e festiva, Álvaro me convidou para um grande baile na alta sociedade de Recife. Eu hesitei, recusei, tinha medo de ser vista, de ser reconhecida. Mas ele insistiu tanto, queria me apresentar aos amigos, que aceitei para não decepcioná-lo.
Foi meu maior erro.
No baile, enquanto dançávamos uma valsa, rodopiando no salão iluminado, um homem me reconheceu. Era Martinho, um capitão do mato ganancioso e cruel que Leôncio havia contratado pagando uma fortuna para me caçar pelo Brasil inteiro. Ele me viu, me reconheceu pelos cartazes de ‘fuga’, e me apontou no meio do salão, gritando para que todos ouvissem:
‘Esta mulher é uma escrava fugida! Ela é propriedade roubada! Ela pertence ao Senhor Leôncio Almeida, de Campos dos Goitacazes! Prendam-na!’
O salão inteiro parou. A música cessou. O silêncio foi mortal. Todos me olharam com horror, desprezo e nojo, como se eu fosse um bicho. As damas se afastaram. Álvaro ficou pálido, chocado, sem entender nada.
‘Isaura… o que é isso?’, ele perguntou.
Tentei explicar, tentei falar, mas as palavras não saíam, só o choro.
Fui arrastada para fora do baile pelos guardas, algemada como uma criminosa perigosa na frente de todos. Álvaro, recuperando-se do choque, tentou me defender, correu para a delegacia, usou sua influência de advogado, apresentou petições, ofereceu dinheiro para pagar minha fiança.
Mas a lei da época era clara e cruel. A lei estava contra mim. Eu era propriedade registrada de Leôncio. Um documento valia mais que minha vida.
O juiz determinou minha devolução imediata ao legítimo dono.
A viagem de volta para Campos dos Goitacazes foi um pesadelo humilhante que jamais vou esquecer. Fui levada num navio negreiro, acorrentada pelos pés e mãos no porão, como um animal selvagem.
Leôncio estava esperando quando cheguei à fazenda, com um sorriso de satisfação doentia e vitoriosa no rosto.
‘Bem-vinda de volta, Isaura’, disse ele, acariciando meu rosto sujo com uma mão fria. ‘Eu disse que você não tinha para onde ir. Agora você vai aprender o que acontece com escravas ingratas que fogem de seus donos amorosos.’
Passei um mês inteiro trancada num quartinho escuro, úmido e infestado de ratos, sem janelas, sem luz do dia, recebendo apenas água suja e farinha velha uma vez por dia para não morrer de fome. Meu corpo emagreceu até os ossos aparecerem sob a pele. Minha pele ficou pálida e cinzenta como a morte. Meus cabelos perderam o brilho dourado, ficaram opacos e sujos.
Mas meu espírito… meu espírito se recusava a quebrar. Minha alma se recusava a se render a ele.
Quando finalmente me soltaram, fraca e doente, Leôncio me chamou novamente à biblioteca. Mas dessa vez, algo era diferente no olhar dele. Ele parecia cansado, abatido, quase humano em sua obsessão.
‘Isaura’, disse ele com uma voz rouca que queria parecer gentil, mas soava desesperada. ‘Eu te amo. Sei que você não acredita, que me odeia, mas é a mais pura verdade. Essa paixão está me matando, me arruinando. Case comigo. Eu me casei com a Malvina por dinheiro, mas é você quem eu quero. Faço de você minha esposa legítima, não minha escrava. Te darei alforria, te darei tudo que você quiser. Só diga sim.’
Olhei para ele com todo o desprezo e nojo que sentia, reunindo minhas últimas forças.
‘Nunca!’, respondi com firmeza, olhando nos olhos dele. ‘Prefiro morrer escrava. Prefiro morrer no tronco, açoitada, a ser sua esposa por um dia. Você é um monstro. Você matou Tobias. Você matou Malvina. Você destruiu tudo que eu amava e tocava. Nunca serei sua.’
Sua expressão mudou completamente. A falsa gentileza sumiu como fumaça, dando lugar ao demônio de sempre.
‘Então vai morrer escrava mesmo! E vai sofrer cada dia até o fim! Pode ter certeza!’, gritou ele, e saiu batendo a porta com violência.
Leôncio me mandou trabalhar cortando cana no sol escaldante do meio-dia, sem chapéu, sem água. Me colocou no tronco por horas a fio para ser exibida aos outros. Me humilhou de todas as formas possíveis. Rosa, a escrava invejosa, ria de mim, feliz com meu sofrimento e minha queda.
Mas eu resistia. Dia após dia. Com a força de quem sabe que a verdade está do seu lado.
Até que Deus não me abandonou completamente.
Álvaro, que nunca deixou de me amar e que tinha vindo atrás de mim desde Recife, conseguiu, através de manobras jurídicas e financeiras, juntar dinheiro suficiente para comprar minha alforria e as dívidas de Leôncio. Ele vendeu propriedades, pediu empréstimos, juntou cada moeda, comprou as promissórias que Leôncio devia a agiotas.
Leôncio estava completamente falido, endividado por causa do jogo e da má gestão, prestes a perder a fazenda. Quando Álvaro apresentou as dívidas e ofereceu perdoá-las em troca da minha liberdade, ele não teve saída. Acabou aceitando, derrotado.
No dia 15 de março de 1860, assinei minha carta de alforria com mãos tremendo de emoção e incredulidade. O papel que dizia que eu era livre, que eu era gente.
Chorei como nunca tinha chorado na vida. Eram lágrimas de dor por tudo que sofri, de alívio por finalmente ser livre das garras daquele homem, de alegria por conquistar o que minha mãe tanto sonhou para mim no seu leito de morte. Liberdade. Aquela palavra doce, poderosa e sagrada. Liberdade.
Casei com Álvaro numa cerimônia simples, mas emocionante, em Recife, no dia 2 de maio de 1860. Meu pai Miguel estava lá, velho e cansado, mas chorando de felicidade. André e Santa também. Usei um vestido branco simples, sem joias, mas me senti a mulher mais linda, rica e livre do mundo.
Álvaro e eu dedicamos o resto de nossas vidas à causa abolicionista. Não podíamos ser felizes sabendo que outros sofriam o que eu sofri. Usamos nosso dinheiro e nossa influência para ajudar outros escravos a comprarem suas alforrias, pagando advogados, comprando liberdade. Escondemos fugitivos em nossa casa, participamos de clubes abolicionistas. Lutamos incansavelmente por um Brasil sem correntes.
Soube anos depois que Leôncio, incapaz de lidar com a derrota e a ruína, morreu em 1865. Completamente falido, bêbado, sozinho numa casa vazia, abandonado até pelos últimos escravos que ainda tinha, suicidou-se com um tiro.
Não senti pena. Não senti raiva. Não senti alegria. Senti apenas nada. Um vazio. Ele não merecia nem meus pensamentos, nem meu ódio. Ele era passado.
Vivi uma vida longa e plena. Vi meus cabelos ficarem brancos, vi rugas marcarem meu rosto onde antes havia a beleza que foi minha maldição, mas vivi livre. Tive filhos com Álvaro, crianças que nasceram livres. Vi meus netos crescerem num mundo que mudava.
E no dia 13 de maio de 1888, quando a Princesa Isabel assinou a Lei Áurea, abolindo completamente a escravidão no Brasil, eu, já velha, chorei de alegria novamente, sentada na minha cadeira de balanço, lembrando de minha mãe Juliana, de Tobias, de Malvina, de todas as mulheres e homens anônimos que sofreram e morreram como eu sofri, mas que não tiveram a mesma sorte.
Morri em 1902, aos 62 anos, em paz, cercada por minha família amorosa. Minha última palavra, sussurrada com um sorriso, foi ‘livre’. Porque eu nasci e vivi escrava. Mas morri livre.
Esta é minha história. A história de Isaura. Uma escrava branca que lutou com todas as forças pela própria liberdade e dignidade num país que insistia em me acorrentar e me negar a humanidade. Que minha história nunca seja esquecida, para que nunca mais se repita.”
E assim termina o relato emocionante e profundo de Isaura, meus queridos. Uma história que dói no fundo do coração, que nos faz refletir sobre quem somos e de onde viemos, mas que é muito importante a gente conhecer e jamais esquecer.
Essa história, embora narrada aqui com a força da realidade, foi baseada no romance clássico “A Escrava Isaura”, escrito pelo autor brasileiro Bernardo Guimarães em 1875, num ato de coragem política durante o período final da escravidão no Brasil.
Mas não pensem que é só ficção literária, não. Bernardo Guimarães se inspirou em casos reais, em histórias ouvidas, em tragédias que aconteceram no Brasil Imperial, principalmente na região de Campos dos Goitacazes, no Rio de Janeiro, que na época era uma das maiores regiões produtoras de açúcar e café do país, com dezenas de milhares de escravos trabalhando em condições desumanas.
A situação de “escravas brancas” ou mulatas claras, que nasciam de relacionamentos (muitas vezes forçados) entre senhores brancos e escravas negras, era extremamente comum e trágica no Brasil escravocrata. Essas mulheres viviam numa situação terrível, ambígua e contraditória. Eram brancas por fora, às vezes mais brancas que suas senhoras, mas escravas pela lei do ventre. Muitas foram abusadas sexualmente, perseguidas, vendidas como objetos de luxo e até mortas pelos próprios donos ou pelos filhos ciumentos destes senhores.
A história de Isaura representa a realidade dolorosa e silenciada de milhares de mulheres que sofreram nas mãos de senhores cruéis durante mais de 300 anos de escravidão no Brasil.
O romance de Bernardo Guimarães foi tão impactante que foi adaptado para a televisão duas vezes, tornando-se um fenômeno cultural. A primeira versão, de 1976, com Lucélia Santos, foi um sucesso mundial gigantesco, sendo vendida para mais de 100 países, levando a história da escravidão brasileira para o mundo. A novela foi tão importante que na União Soviética a palavra “fazenda” entrou para o dicionário russo. Em Cuba, o governo cancelou o racionamento de energia no horário da novela para que o povo pudesse assistir.
E na Bósnia e na Sérvia, durante a guerra sangrenta, foi decretado cessar-fogo durante a exibição dos capítulos. A segunda versão, produzida pela Record em 2004 com Bianca Rinaldi, também fez muito sucesso e trouxe a história para uma nova geração.
É fundamental a gente conhecer e recontar essas histórias para nunca esquecer o que aconteceu, para honrar a memória dessas pessoas que sofreram tanto para construir este país e para garantir que nunca mais, em tempo algum, isso aconteça. A escravidão foi abolida oficialmente em 1888 com a Lei Áurea. Mas suas consequências profundas, suas cicatrizes, ainda estão presentes na nossa sociedade até hoje: no racismo estrutural, na desigualdade social abissal, na injustiça que muitos ainda enfrentam diariamente.
Fontes históricas e literárias sobre esse período incluem o romance original “A Escrava Isaura” de Bernardo Guimarães (1875), documentos do Arquivo Nacional sobre a Escravidão em Campos dos Goitacazes e na província do Rio de Janeiro, e diversos estudos acadêmicos sobre a condição das escravas no Brasil Imperial.
Bom, meus queridos, eu espero de coração que vocês tenham gostado dessa narrativa e que ela tenha tocado o coração e a consciência de vocês tanto quanto tocou o meu ao prepará-la. A história de Isaura é uma história de dor, sim, mas acima de tudo é uma história de resistência, de dignidade, de coragem e de luta inegociável pela liberdade.
Me conta aqui nos comentários de qual estado ou cidade do Brasil vocês estão assistindo esse vídeo e o que acharam da história. Adoro saber de onde são nossos ouvintes queridos e trocar ideias com vocês.
Mando um abraço enorme, apertado e carinhoso para cada um de vocês. E muito obrigada, de verdade, por terem me acompanhado até aqui, por terem dedicado seu tempo para conhecer a história da Isaura.